Artigo de Ricardo Miyashita e Cyro Alves Borges Junior
A iminente falência das três grandes montadoras de automóveis dos EUA preocupa os cidadãos do mundo inteiro, e serve de lição para a sociedade brasileira. Ao contrário do que muitos poderiam pensar, a crise financeira mundial não foi a única causa da queda desses gigantes, mas somente a gota d’água de um processo de morte lenta que se estende há anos.
Também não se deve colocar a culpa somente nos custos elevados de fabricação e na oferta de modelos poluentes e de baixo rendimento de combustível, que são mais reflexos do que causas do verdadeiro problema. Um diagnóstico mais aprofundado identifica que a causa da ruína dessas empresas está, em verdade, na baixa capacidade de inovação em processos e produtos.
Empresários do mundo inteiro sabem da importância da inovação. Em tempos de globalização e sociedade do conhecimento, quem não inova acaba morrendo. Mas não basta conhecer esta verdade. A GM, a Ford e a Chrysler sabiam disso e até fizeram esforços para lançar novos modelos de automóveis, reduzir custos de fabricação e melhorar o relacionamento com os clientes. Onde erraram, então, essas empresas? O erro foi na falta de atitude e na falta de velocidade em inovar.
De um ponto de vista histórico, a origem da crise da indústria automobilística remonta aos 1950, quando as empresas japonesas como a Toyota, arrasadas pela guerra, criaram sistemas de produção mais econômicos, motivados principalmente pela escassez de recursos materiais, humanos e financeiros. Surgiu assim a chamada “produção enxuta” e os sistemas de Qualidade Total, cujas técnicas foram posteriormente difundidas em âmbito mundial. Essas técnicas tinham como uma de suas bases principais a melhoria contínua de processos produtivos, que foi sistematicamente buscada pelos funcionários das empresas asiáticas ao longo de décadas e que resultaram numa revolução invisível, cujos resultados foram a fabricação de automóveis muito mais baratos, confiáveis e econômicos que os similares ocidentais.
Um estudo conduzido pelo Massachussets Institute of Technology (MIT) nos anos 1980 já indicavam a distância entre os desempenhos de fábricas típicas da GM e da Toyota. Um carro da GM gastava 40,7 horas para ser montado; a Toyota gastava 18 horas. Na GM encontravam-se em média 1,3 defeitos de fabricação por carro e a Toyota apenas 0,45. A GM dedicava 0,75 m2 de espaço de montagem por carro e tinha um estoque médio de peças para 2 semanas; já na Toyota esses valores eram respectivamente 0,45 m2 e apenas 2 horas, tirando vantagem do sistema “Just in Time”, muito menos oneroso em termos de custos. Desde essa época até agora os americanos lutaram, e muito, para se aproximar dos japoneses. Mas a história mostrou que o esforço não foi suficiente, pois o alvo também se moveu, ou seja, os americanos continuaram para trás.
A crise financeira também atingiu as montadoras japonesas de automóveis, que anunciaram cortes na produção e nos investimentos, como foi o caso do abandono da Honda da Fórmula 1. Mas a perspectiva é bem diferente nas margens opostas do Pacífico. Enquanto no Oriente a perspectiva é de retomada após a tormenta, no lado Ocidental parece que batalha está sendo perdida.
Para nós fica o aprendizado. É preciso inovar. Não basta importar tecnologia; é preciso investir em educação, que é a base da inovação. Necessitamos também de uma nova atitude mais ativa, de querer inovar nos mais diversos campos da sociedade. E inovar rápido, porque no mundo em que vivemos, quem demora para inovar, fica para trás e corre um grande risco de ser engolido pela concorrência.
Ricardo Miyashita e Cyro Alves Borges Junior são professores do Departamento de Engenharia Industrial da Uerj
http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2008/12/19/gm-ford-chrysler-a-revolucao-silenciosa-da-inovacao-587367638.asp